segunda-feira, 29 de julho de 2019

Dá raiva, mas dá pena


SONETO 47

Pobre que come na mão de patrão
Não passa um dia sem sonhar virar um.
Nó cego, pensa que lambendo mão
Vão lhe dar um osso pra roer no fim.

É destino certo desse cudum
Arrastar-se humilhado pelo chão
Enquanto o patrão lhe chuta o cu
Inchado de levar tando bicão.

Dá raiva, mas da pena desse bosta
Que, afinal, também é trabalhador
O excesso de ambição espanou a rosca

Do único parafuso de sua cachola
Cada vez que aperta fica pior
Porque ele roda, roda, roda e... solta.

17/03/18
Ilustração: Pieter Brueghel: Mundo traidor.

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